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sexta-feira, 28 de abril de 2017

A CONSCIÊNCIA DE AFRODITE

Afrodite, a Deusa Alquímica
Deusa do Amor e da Beleza

 Afrodite inclui-se na categoria muito própria de Deusa Alquímica, uma designação adequada ao processo mágico ou poder transformador que só Ela tinha.

Na mitologia grega, Afrodite era uma presença reverenciada e temida, que levava @s mortais e as divindades (à excepção das três deusas virgens) a apaixonarem-se e a criarem vida. Embora possua algumas características em comum tanto com as deusas virgens como com as deusas vulneráveis, não pertence a nenhum dos grupos.

Afrodite, a deusa que teve mais ligações sexuais, não era definitivamente uma deusa virgem, apesar de se parecer com Ártemis, Athena e Héstia pelo facto de fazer apenas o que lhe agradava. Também não era uma deusa vulnerável, embora se assemelhasse a Hera, Deméter e Perséfone pelo facto de se ligar a divindades do sexo masculino e/ou ter filhos. Todavia, ao contrário dessas deusas, Afrodite nunca foi vítima da paixão indesejada dum homem por ela. Valorizou a experiência emocional com outros mais do que a independência em relação a eles (que movia as deusas virgens) ou os laços permanentes com outr@s, que caracterizam as deusas vulneráveis.

Enquanto Deusa alquímica, Afrodite apresenta algumas semelhanças com as outras duas categorias, apesar de ser intrinsecamente diferente de ambas. Para Afrodite, as relações são importantes, mas não enquanto compromissos a longo prazo com outras pessoas (que caracterizam as deusas vulneráveis). 

Afrodite procura consumar relações e gerar nova vida. Esse arquétipo pode ser expresso por meio de relações físicas ou de um processo criativo.

 O que Ela procura difere do que procuram as deusas virgens, mas Afrodite assemelha-se a elas pelo facto de ser capaz de se focar no que é pessoalmente significativo para Ela; os outros não a conseguem fazer desviar do seu objectivo. E, no facto de o que Ela valoriza ser unicamente subjectivo e não poder ser medido em termos de êxito ou reconhecimento, Afrodite é, paradoxalmente, mais semelhante à anónima e introvertida Héstia que, à superfície, é a Deusa menos parecida com Afrodite.

Qualquer pessoa ou qualquer coisa que Afrodite imbua de beleza é irresistível. Ocorre uma atração magnética entre as pessoas, uma “química”, surgindo um desejo de união acima de tudo. As pessoas sentem um desejo irresistível de se aproximarem, de terem relações, de consumarem a união – ou de “se conhecerem” uma à outra, no sentido bíblico da expressão. Embora essa necessidade possa ser puramente sexual, o impulso é muitas vezes mais profundo, representando uma necessidade tanto psicológica como espiritual. Ter relações é sinónimo de comunicação ou comunhão, consumar pode significar um forte desejo de plenitude ou perfeição, união significa ambas as pessoas fundirem-se numa só e conhecer é realmente compreenderem-se mutuamente. É o desejo de conhecer e de ser conhecida/o que Afrodite gera.

Se conduz à intimidade física, esse desejo pode ser seguido de fecundação e de nova vida. Se a união é também, ou é tão-somente, entre as mentes, os corações ou os espíritos, observa-se um novo desenvolvimento nas esferas psicológicas, emocionais ou espirituais. Quando Afrodite influencia uma relação, o seu efeito não se limita aos aspectos românticos ou sexuais. O amor platónico, a ligação das almas, a amizade profunda, a harmonia ou a compreensão empática são expressões de amor. Sempre que há crescimento, melhoria na compreensão, desenvolvimento do potencial ou estímulo à criatividade (como pode acontecer nas actividades de tutoria, aconselhamento, educação, direção, ensino, psicoterapia), lá está Afrodite, afectando ambas as pessoas envolvidas.

A CONSCIÊNCIA DE AFRODITE 

A qualidade de consciência associada a Afrodite é única. As deusas virgens são associadas à consciência focada e são os arquétipos que permitem às mulheres concentrarem-se no que é importante para elas. A receptividade das deusas vulneráveis equivale à consciência difusa. Afrodite, porém, possui uma qualidade de consciência muito própria, a “consciência de Afrodite”. É focada, embora receptiva; semelhante consciência não só capta aquilo a que presta atenção como é afectada por isso.

 A consciência de Afrodite é mais focada e intensa do que a consciência difusa das deusas vulneráveis. Porém, é mais receptiva e atenta àquilo em que se foca do que a consciência focada das deusas virgens. Por conseguinte não é nem um candeeiro de sala, que ilumina e faz brilhar suavemente tudo o que se encontra no seu raio de alcance, nem um holofote ou um raio laser.

Para Jean Shinoda Bolen, a consciência de Afrodite é semelhante às luzes de teatro que iluminam o palco. O que observamos sob estas luzes da ribalta, acentua, dramatiza ou amplia o impacto que a experiência tem sobre nós. Captamos e reagimos ao que vemos e ouvimos. Essa iluminação especial permite que sejamos transportad@s emocionalmente durante uma sinfonia ou que sejamos tocad@s por uma peça ou pelas palavras dum orador; os sentimentos, as impressões dos sentidos e as memórias brotam de nós em reação ao que vemos e ouvimos. Em contrapartida, as pessoas que estão no palco podem sentir-se inspiradas por uma audiência e estimuladas pela relação que sentem que se está a estabelecer. O que se encontra sob as “luzes da ribalta” absorve a nossa atenção. Somos atraídas/os sem esforço para o que vimos e sentimo-nos descontraídas/os na nossa concentração. Seja o que for que vejamos sob a luz dourada da consciência de Afrodite, torna-se fascinante: o rosto ou o carácter duma pessoa, uma ideia sobre a natureza do universo ou a transparência e forma duma peça de porcelana.

Quem se tenha apaixonado por uma pessoa, um lugar, uma ideia ou um objeto, foca-se neles e capta-os com a consciência de Afrodite. Porém, nem todas as pessoas que usam a consciência de Afrodite estão apaixonadas. A forma “apaixonada”, típica de Afrodite, de prestar atenção a outra pessoa, se ela é fascinante e bela, é característica das mulheres que personificam o arquétipo e é uma maneira natural de relacionamento e de recolha de informações para muitas mulheres (e homens) que gostam de pessoas e focam toda a sua atenção nelas de uma forma intencional.

ma mulher assim apreende as pessoas da mesma forma que um conhecedor de vinhos presta atenção às características dum vinho interessante e desconhecido e se apercebe delas. Para apreciar plenamente a metáfora, imaginemos um entusiasta de vinhos a gozar o prazer de se familiarizar com um vinho desconhecido. Ergue o recipiente contra a luz para observar a cor e a transparência do vinho. Inala o bouquet e sorve lentamente um golo para captar o carácter e a suavidade do vinho; chega a saborear o travo que fica na boca. Porém, seria um erro partir do princípio de que a “atenção afectuosa” e o interesse que revela pelo vinho significam que esse vinho em particular é especial, valorizado ou mesmo apreciado. 

Trata-se do erro que as pessoas cometem frequentemente quando reagem a uma mulher com a consciência de Afrodite. Expostas ao brilho do seu foco, sentem-se atraentes e interessantes à medida que ela as estimula e reage com afeto ou apoio (em vez de com avaliações ou críticas). É o seu estilo de se envolver genuína e momentaneamente com seja o que for que a interesse. O efeito sobre a outra pessoa pode ser sedutor e enganoso, se a sua maneira de interagir dá a impressão de que está fascinada ou enamorada, quando não é esse o caso. 



CONSCIÊNCIA, CRIATIVIDADE E COMUNICAÇÃO DE AFRODITE

Jean Shinoda Bolen refere que descobriu a consciência de Afrodite quando compreendeu que nem a “consciência focada” nem a “consciência difusa” descreviam o que ela própria fazia no seu trabalho de psicoterapeuta.

Ao estabelecer a comparação com artistas e escritores, apercebeu-se de que, no trabalho criativo, funcionava um terceiro modo, que passou a denominar “consciência de Afrodite”. “Numa sessão de terapia, reparei na ocorrência de vários processos em simultâneo. Estou absorta a escutar o meu doente, que tem toda a minha atenção e compaixão. Ao mesmo tempo, a minha mente está ativa, estabelecendo associações mentais com aquilo que ouço. Ocorrem-me coisas que já sei sobre a pessoa: talvez um sonho passado, informações sobre a família, um incidente anterior ou acontecimentos correntes na sua vida que podem estar relacionados. Às vezes surge uma imagem ou uma metáfora. Posso ainda ter uma reação emocional, quer ao material quer à forma como é expresso, reação essa que anoto. A minha mente trabalha ativamente, mas de uma forma recetiva, estimulada pelo facto de estar absorta na outra pessoa (…).”

A consciência de Afrodite está presente em todo o trabalho criativo, incluindo naquele que se realiza na solidão. O diálogo da “relação” processa-se pois entre a pessoa e o trabalho, do qual emerge qualquer coisa nova. É uma troca entre o artista e a tela e o resultado é a criação de qualquer coisa que antes não existia. 

 Fonte: Jean Shinoda Bolen, AS DEUSAS EM CADA MULHER, Planeta Editora

Imagens: altar a Afrodite
A última foto foi feita por mim em junho de 2019 no museu de arqueologia de Atenas, Grécia
             


Tudo sobre Afrodite/Vénus: http://pt.fantasia.wikia.com/wiki/Afrodite

quarta-feira, 26 de abril de 2017

AFRODITE, GRANDE DEUSA MÃE, MOSTRA-NOS O CAMINHO



Nenhuma outra deusa representa as qualidades femininas do amor e da beleza como Afrodite. Esta deusa grega é na verdade a mais antiga encarnação da Grande Mãe, Deusa da Fertilidade e de tudo o que é. Trata-se dum arquétipo que remonta a um tempo porventura ainda anterior ao Neolítico.

Todas as figurinhas redondas representando a Deusa Mãe encontradas na Europa e na Ásia são chamadas Vénus, tal como a Vénus de Willendorf, a Vénus de Lespugue, a Vénus de Dolni, etc. Elas representam a forma mais antiga do sagrado feminino, a Grande Deusa. Vénus é a Sua homóloga romana mais moderna, mas esta divindade não representa a ligação profunda e o amor pela terra e por todas as suas criaturas, nem a associação com a Lua Cheia e a fertilidade, como a Grande Mãe.

O nome “Afrodite” significa “nascida da espuma do mar”, do oceano, do útero da Grande Mãe. Diz-se que o seu local de nascimento é perto da Ilha de Chipre, embora outr@s digam que Ela vem das estrelas. O Seu mito, no entanto, descreve-A sempre surgindo no mar ou dirigindo-se para a terra vinda do mar. Neste sentido, podemos considerar que Afrodite deu origem a si mesma, tal como nós podemos renascer de nós mesmas, vendo-nos duma forma completamente nova.


Há várias representações da Deusa olhando-se num espelho, o que evoca o tema da Deusa refletindo-nos a nós mesmas. Ao vermos a deusa do amor e da beleza na forma de Afrodite, vemos o nosso próprio amor e beleza e todas as suas possibilidades devolvidas a nós mesmas. Ao vermo-nos a nós mesmas desta maneira, através da lente do divino feminino, com novos olhos, por assim dizer, nós renasceremos numa nova forma feminina, e muito bela aos nossos olhos, e poderemos amar cada parte de nós. Todos os nossos defeitos e imperfeições desaparecem. Para a atriz Alfrie Woodard “Tod@s tempos uma parte do nosso corpo de que não gostamos, mas eu deixei de me queixar do meu porque não quero criticar o trabalho da própria natureza. A minha tarefa consiste apenas em permitir que a luz faça brilhar esta obra-prima.”

Devemos aprender a amar-nos a nós mesmas, a aceitar a confusão e os erros das nossas vidas, todos os solavancos e protuberâncias, dúvidas e medos, para, com muito amor, as podermos transformar. Diz-se normalmente que Afrodite é uma Deusa alquímica, pela Sua capacidade de nos transformar a partir do nosso interior. Quando conseguimos amar as nossas imperfeições, podemos amar as das outras pessoas, trazendo para a nossa vida mais tolerância e aceitação, ingredientes indispensáveis na alquimia do amor. Quando deixamos de nos julgar, deixamos de julgar também as outras pessoas. Quando deixamos de sentir a necessidade de nos criticarmos a nós mesmas, deixamos de sentir a necessidade de criticar as outras pessoas. Afrodite mostra-nos o caminho permitindo-nos ver que cada forma de beleza tem as suas falhas e que a perfeição é uma ilusão, um exercício de futilidade destruidor da alma.

Se nós aceitarmos, e se até amarmos os nossos defeitos, as nossas peculiaridades, as nossas “perfeitas imperfeições”, nós redefiniremos o conceito de beleza incluindo nele a nossa própria forma, a nossa humanidade. É por isso que precisamos de aprender a cuidar de nós mesmas duma forma radical. Precisamos de aprender a amar-nos a nós próprias primeiro porque só assim seremos capazes de amar outras pessoas de forma completa. Isto não significa que eu me torne narcísica, mas sim que eu comece o amor por mim mesma e só então ele irradiará para fora de mim.


Demasiadas vezes as mulheres sentem-se vazias, esgotadas, mas sempre a dar aos outros, esquecendo-se de si próprias. Esquecemo-nos de encher o poço. E para isso precisamos de nos sentir merecedoras e é aí que surge Afrodite. Embora haja várias formas de olhar para o arquétipo de Afrodite, eu escolho vê-la como uma Grande Deusa Mãe, que nos pode ajudar a amarmo-nos a nós mesmas, a vermos a nossa própria beleza e a tomar melhor cuidado de nós. Toda a boa mãe sente que a sua filha e o seu filho merece muito amor. Sem dúvida que Afrodite sente que merece muito amor e prazer e Ela sabe que nós também merecemos. Precisamos de pôr esta ideia em prática, de redescobrir e intensificar a nossa natureza sensual, para nos descobrirmos a nós mesmas através da criatividade e aprendermos a ir mais fundo na vida e especialmente a amarmo-nos e a cuidarmos melhor de nós mesmas.

http://owlandcrow.saladd.com/2012/02/20/aphrodite-great-mother-goddess-shows-us-the-way/ (traduzido e adaptado por Luiza Frazão)